quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Mulher Fálica






MULHER FÁLICA
"Clarice, uma publicitária de 31 anos, é uma mulher fálica que acaba de descobrir na sua terapia que tem pinto. Não real, mas comportamental. Em alguns casos ela se comporta como um homem. Entra num restaurante pisando firme, exige uma mesa para dois não fumantes, bem como pega a mão do cara respeitoso e enfiava no meio dos próprios peitos. Na sua cabeça, esse negócio de discutir relacionamento num cantinho reservado, é uma situação mais propícia para alguns gemidos (...) o que mais Clarice queria, era, na verdade, encontrar um homem com pinto maior do que o dela. Era tão difícil assim? Um homem que a fizesse sentir tão mulher que a deixasse descansar dessa sua autodefesa masculina." [Tatiane Bernardi]



O papel por muito tempo designado às fêmeas sociais, o da contenção e da passividade, as mulheres de voz e cabeças baixas, concordantes, de seios figurativos à amamentação e de ventres roliços destinados à procriação, passam a diluir-se na atualidade, com a libertação da figura feminina, sua inserção na arena do trabalho e comprovação de competência. Hoje os papéis entre masculino e feminino se fundem, ou pelo menos se misturam, e aos poucos emerge uma nova subjetivação de mulher, cujos contornos que outrora eram feitos a lápis em traços sutis, hoje aparecem pintados com a mesma intensidade com que uma agulha perfura e tatua a pele.
Refiro-me às mulheres fálicas. Essas mulheres, que assustam os homens asfixiados e confusos da pós-modernidade. Toda a mulher que nasce hoje, já nasce com uma autorização ao masculino. Já se forma em uma sociedade que lhes garante não apenas os direitos, mas os deveres. Ao voto, ao estudo, à voz-ativa, aos cargos de poder, tomada de decisões, ao volante, ao divórcio, ao espermatozóide anônimo, a discórdia, ao sexo. Paradoxalmente, não nos livramos de nossos “deveres antigos”, de sermos amáveis, simpáticas, sorridentes, bonitas, prendadas, boas parceiras e boas mães, e quase que invariavelmente, o menos fálicas possíveis.
Temos na história, algumas representações de mulheres fálicas que viraram ícones. São poucas, tão poucas que viraram ícones. Na política, na música, nos negócios, na literatura, na psicanálise, nos esportes, lá estão elas. Conheço de perto algumas. Dia desses me encontrei com uma delas, que me relatava alguns insucessos em suas aspirações amorosas, ao que eu lhe apontei que ela era tão fálica que devia assustar os homens, quem sabe se fosse um pouco menos.
Ela me rebate sem nem pensar para responder, “eles que aprendam a lidar com a minha verdade”. Decidida. “Sou mesmo tão fálica que comprei meu próprio pênis!”, ela me lança, referindo-se ao vibrador de coelhinho cor-de-rosa que trouxe de viagem. Mulheres fálicas não são passivas, são ativas. Mulheres fálicas penetram, adentram, perfuram e gozam onde bem entendem.
Mulheres fálicas são fortes, funcionais, elas buscam, catam, procuram, tem a mente voltada para o movimento, não se contentam com o lugar de trás. Ficam num impasse, porque também não querem andar na frente abrindo a trilha sozinhas, querem um homem igualmente ou mais fálico do que elas próprias, e estes também estão em falta. Quando existem são aqueles machões rusticamente trovejantes e grosseiros, que uma mulher que é fálica mesmo jamais vai se atrair, porque para elas inteligência e sensibilidade também são afrodisíacos, uma coisa não anula a outra. Complexo.
O que os homens ainda não descobriram, é que atrás de toda leoa feroz existe uma gatinha que pode ronronar, que vai defender a prole com unhas e dentes, e que vai lutar até a morte pelos próprios princípios. Ela é para fora, e portanto muito mais confiável, visível, fiel consigo mesma, fiel com sua própria verdade. Voltando a minha torrencial amiga, ela consegue transitar nesse pólo sem ferir. Fala na minha cara o que não gosta, onde foi que eu errei, e o que espera de mim. Se mostra, se lança, vive na intensidade dos sentidos, me encanta de uma forma que tenho um orgulho gaudério de tê-la como amiga. Não entendo como um homem possa temer isso, e não entendo como um homem não possa se apaixonar por isso, mas os homens são estranhos.
Talvez não apenas os homens não estejam preparados para elas. Talvez o mundo não esteja. Mas ser fálica é isso mesmo, é estar frente ao seu próprio tempo. Concluo portanto, me curvando aqui, em reverência à audácia, coragem, valor e existência de todas estas mulheres.
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Um comentário:

Esmeralda Barbosa disse...

Vivo esta realidade diariamente...sou completamente fálica, me orgulho, me reconheço...texto perfeito pude me ver nele !!

Parabéns bejos